Nego Drama

quarta-feira, 19 de março de 2014

A visão que queremos no futebol

O futebol na cidade de Pelotas é marcado por sua rivalidade, Brasil e Pelotas (Brapel) é o mais conhecido, mas temos também o Farpel ( Farroupilha e Pelotas) e o Brafar ( Brasil e Farroupilha).
Nos últimos anos vemos essa rivalidade ser acirrada, por conta de alguns torcedores mais exaltados e preconceituosos. 
Sabemos que a diretoria dos times em nada tem haver com as torcidas organizadas, que são formadas através de um grupo de torcedores, porém fica a falha a omissão dessas mesmas diretorias ao saber de problemas e não enfrentarem por medo de perder esses torcedores.
Quem é Brasil será sempre Brasil até embaixo d'água, se meia dúzia de torcedor resolver fazer baderna a direção tem SIM que se posicionar e se for o caso banir estes do seu estádio, seja temporariamente ou pra sempre, como diz o ditado, uma laranja podre, apodrece todo o cesto o meso dizemos do Pelotas, quem é Pelotas será sempre Pelotas e não vai ser meia dúzia de arruaceiros que irão manchar a reputação do clube.
Mas isso tem que partir da direção, ,pois do jeito que está, cada dia vai ficar pior, tem que dar um basta no que não presta e exaltar o que ainda vale a pena que é o nosso futebol.
Talvez seja utópico ver negros e brancos juntos festejando seu time vitorioso ou até mesmo chorando juntos por seu time ter sido rebaixado, mas de jeito nenhum esse sentimento deve extrapolar o real sentimento de democracia. 



O blog foi duramente criticado por torcedores do Pelotas por ter sido parcial em suas colocações, no episódio da câmara de vereadores, se de alguma forma ferimos o coração do verdadeiro auro-cerúleo, pedimos encarecidamente que, chamem suas torcidas e façam uma avaliação, pois está ficando inaceitável que posições reacionárias sejam expostas no que se tem de mais bonito no futebol que são suas torcidas apaixonadas.
A não muito tempo, já tivemos um episódio onde acabou em óbito de um torcedor do Pelotas e é óbvio que não queremos que isso aconteça com mais ninguém seja do Brasil, seja do Pelotas ou até mesmo do Farroupilha.
As rivalidades no futebol local, já ultrapassou divisas, onde por exemplo o Brasil já tem um adversário que é o São paulo de Rio Grande, onde sua torcida também não é nenhuma santa. 
Pedimos desculpas as diretorias dos times aqui citados, se de alguma forma foram atingidas por palavras que não soou bem, mas que estas mesmas diretorias arranjem uma forma de tornar o futebol pelotense novamente, naquele espetáculo de levar todas as famílias em um domingo de sol, para ver seu time do coração. 
Que negros e brancos junte-se na luta contra todo o tipo de preconceito, seja racial, homofóbico ou de gênero.
Foto REDE esportiva.

Torcedor do Pelotas desmente diretoria e diz que também sofrem preconceitos

Ainda na audiência pública, foi passada a voz para o pessoal da mesa, dentre eles um torcedor apaixonado da torcida organizada Força Jovem.
Diferente que um diretor falou anteriormente, que o Pelotas não é preconceituoso e nem racista. O torcedor sem medo nenhum da aristocracia racista Aure-cerúlea falou: ...Nós não temos apoio nenhum do clube, muito menos da direção, somos uma torcida apaixonada, mas infelizmente o Pelotas é racista SIM, em certa feita estávamos fazendo um pedágio ( , Fazendo uma vaquinha Juntando umas moedas) em uma sinaleira, quando passou um dirigente do clube e perguntou o que fazíamos ali, respondemos e ele nos mandou embora, pois aquilo era coisa da macacada do pepino).
A direção do Pelotas não se manifestou, deixando claro que a fala do menino era verdadeira.
O jovem relatou também, que está muito triste com a mídia convencional, pois tudo de ruim atribuem as torcidas, e o lado bom nunca mostram, pois a Força Jovem faz a anos um trabalhos sociais, como levar comida aos mais necessitados dentre outros projetos. Fica aqui nosso parabéns a essa torcida que além de ser apaixonada pelo seu time, trabalha em prol dos mais necessitados.
Integrante da Força Jovem do Pelotas. 

terça-feira, 18 de março de 2014

Audiência Pública contra o Racismo no Futebol quase acaba em pancadaria

Uma audiência pública contra o racismo quase acaba em pancadaria, foi preciso a intervenção do estado através da gloriosa Brigada Militar.
Torcedores da famosa UPP ( Unidos Por uma Paixão) do Esporte Clube Pelotas, já entraram provocando torcedores do seu arquirrival Xavante.
Marcio Chagas foi o convidado especial, por ter sido alvo de racismo no futebol pela torcida do Esportivo.
Márcio Chagas, árbitro gaucho.

Torcedores do Brasil ficaram por alguns minutos dentro das dependências da câmara municipal, mas tinham que ir para casa, ao sair na rua foram ridicularizados por membros da torcida adversária.
Ironicamente o que era para ser um tratado de paz, quase terminou em uma pista de guerra, lamentável situação.
Torcedores do Pelotas sendo apartados pelo presidente da Cámara

Lamentavelmente, foi preciso a chegada da Brigada Militar para conter os ânimos, o presidente da casa Ademar Ornel até tentou acalmar a gurisada mas sem êxito.

A torcida do Esporte Clube Pelotas é conhecida pela sua postura racista, onde em jogos de futebol, seja em casa ou não, levam bananas para atirar atirar na torcida do Brasil, esta postura está sendo repudiada inclusive por alguns torcedores do próprio clube que não compactuam com essa prática.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

1ª Caminhada contra a Intolerância Religiosa e Racismo

Nesta quarta feira foi realizada a 1º Caminhada Contra a Intolerância Religiosa e Racismo na cidade de Pelotas.
Pelotas é considerada a cidade mais negra do estado do Rio Grande do Sul,  por conta das charqueadas e dos negros escravizados que pra cá vieram, mesmo depois da abolição a condição do negro não só no páis como na cidade é precária, onde sofre com a falta de saúde básica, uma educação de qualidade, a cultura também é nos negada, pois o investimento nesta área para população pobre e negra é perto do nível zero.
Diante desta problemática e de uma ação conju8nta do Ministério Público e Prefeitura Municipal, ficou decretado que os povos de terreiro não mais acampariam na Orla do Barro Duro para fazer seus rituais religiosos por causa da degradação do Meio Ambiente, mas o engraçado é que durante todo o ano a prefeitura e nem o Ministério Público se preocuparam com a degradação do meio ambiente e logo agora as vésperas da festa da mãe das águas é que o problema resurgiu com força total, sendo assim as casas de religiões junto com a Federação de Umbanda proporam uma Audiência Pública entre as partes para tentarem entrar em acordo, mas infelizmente nem o Ministério Público pode ir por conta de compromissos previamente agendados e nenhum representante do executivo local, tanto da SECRETARIA DE QUALIDADE AMBIENTAL a qual é a responsável direta por questões relacionadas ao meio ambiente como também da secretaria de cultura, onde se tem um responsável pelas manifestações populares que nem em ofício disse porque não iria a audiência.
Sendo assim por decisão da maioria dos presentes foi decido uma caminhada da Câmara de Vereadores até a Prefeitura Municipal de Pelotas para fazer a lavagem simbólica das escadarias do paço municipal para ver se entra na cabeça dos líderes do executivo que a festa realizada a quase 6 décadas não é a responsável direta pela degradação do meio ambiente.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Atrás de um grande homem sempre tem uma grande mulher!!

Hoje é dia de eleição presidencial nos EUA e eu quero falar de amor. Do amor que sustenta o homem mais poderoso do mundo. Da mulher que é o esteio desse homem.

Contam que Michelle já advogava e Obama foi seu estagiário. Por aí vemos de que mulher se trata. Contam também que para apoiá-lo na carreira política, Michelle exigiu que Obama jantasse pelo menos três noites em casa, em família. Ele, por vontade própria, orgulha-se de ter lido H

arry Porter junto com a filha mais velha. 





São inúmeras as demonstrações públicas de afeto do casal, na quadra de esportes, na convenção dos Democratas, na lanchonete, nos jardins da Casa Branca, em eventos oficiais. Parece real quando Obama coloca sorvete na boca de Michelle, quando a beija na boca durante o jogo de basquete, tudo bem comportado, nada caliente, descabido para um Presidente, mas suficiente para a gente imaginar que tem dendê na vida privada deles, passados 20 anos de união. Comemorados 20 anos, talvez fosse mais adequado dizer, pois os pombinhos parecem viver a festa de renovação da argamassa de todo dia na construção do amor.


Sim, eles podem! São companheiros antigos, mas a energia sexual não deixou de circular ali. Na relação dos dois não parece haver acordo de aparências como Hilary e Bill. Ele, mais triste, a cada aparição pública. Ela, cada vez mais Thatcher.


E que bem faz ao mundo, às mulheres negras do mundo, esse casal presidencial. Quando Michele demonstra que Obama é seu homem e ele a apresenta como sua mulher, ambos transbordam de orgulho, cumplicidade e alegria. O mundo os vê e acredita que casais negros são ainda possíveis, que famílias negras podem ser formadas.


Michelle e Obama parecem ser felizes e as mulheres negras são desejáveis e dignas de amor e cuidado. Este, o recado subliminar do Presidente negro. De maneira objetiva, é negra a mulher amada, a mãe de suas filhas, a companheira dos dias tristes e alegres. A primeira dama carinhosa e não-protocolar com a Rainha da Inglaterra, tratada como respeitável e frágil velhinha. A mulher elegantíssima, que joga futebol, pula cordas e amarelinha com a criançada nas ruas.

Por Cidinha da Silva

sábado, 14 de julho de 2012

Todo dia é dia de Estrupo


A história de Marie Nzoli: do coração das trevas a um hotel de luxo em São Paulo. De onde ela vem, o estupro é um instrumento de guerra. E as mulheres contaminadas pelo HIV são armas biológicas


“Por que a água é azul?”, pergunta Marie Nzoli, apontando para a piscina. Em um mundo com infernos demais, ela acabara de chegar do pior deles. Pela primeira vez em 48 anos de vida, deixara a República Democrática do Congo e, depois de uma saga de três dias, desembarcara no Gran Hyatt, um luxuoso hotel de São Paulo, com vista para a Ponte Estaiada. Na mala, trazia lençóis.Como nunca havia pegado um avião, ela pensava que seria necessário forrar a poltrona com eles. Ao olhar para a piscina e constatar que “a água é azul”, talvez estivesse tão ou mais encantada que o astronauta Iuri Gagarin ao ver pela primeira vez a Terra do espaço. Marie Nzoli atravessara vários mundos –fora e dentro de si – para contar sua história ao Brasil.
De onde Marie vem, o estupro é um instrumento de guerra. E as mulheres contaminadas pelo HIV são armas biológicas. O Congo é devastado por conflitos armados antes e depois da independência da Bélgica, em 1960. No final do século 19, quando a África já tinha sido canibalizada pelos europeus, a terra de Marie inspirou Joseph Conrad a escrever o perturbador “O coração das trevas” – livro que no século 20 inspiraria Francis Ford Coppola ao filmar“Apocalipse Now”, transportando o horror para o Vietnã. Hoje, o Congo continua habitado pela insanidade. Além das guerras, é arrasado também pela fome, pela falta de água potável e por doenças como Aids, sarampo e malária. Tem o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do planeta.
Para compreender o espanto de Marie é preciso apalpar as dimensões de sua travessia.Marie deixara uma casa de madeira, tijolo e barro, com uma plantação de batata e feijão e uma criação de cabras, porcos e coelhos, na pequena cidade de Butembo, no Kivu do Norte, uma das regiões mais perigosas do Congo.E, quando algo é muito perigoso no Congo, pense no inimaginável. Encravado no leste do país, a província de Kivu do Norte faz fronteira com Uganda e Ruanda. E, para além de todos os tormentos, vive uma disputa étnica entre tutsis e hutus. O genocídio que matou cerca de 1 milhão de tutsis na vizinha Ruanda, em 1994, se estendeu para dentro da fronteira leste do Congo, para onde hutus fugiram em massa depois da recomposição do país. (Se você não conhece essa história, pegue na locadora um filme chamado “Hotel Ruanda”.)
Militares e guerrilheiros igualam-se na capacidade de cometer atrocidades em massa, deixando a população desamparada, sem ter para quem pedir proteção. Quase 2 milhões de pessoas, segundo a ONU, vivem hoje longe de suas aldeias – em fuga, mas sem conseguir escapar.“O povo do meu país está sempre fugindo”, diz Marie. “Foge de tudo, porque sabe que está sendo exterminado.” Foge em círculos.
Mulheres como Marie vivem a demência de ter seus filhos recrutados à força pelas milícias, quando ainda são crianças, e suas filhas, assim como mães e irmãs, estupradas muitas vezes, por muitos homens alternando-se sobre os seus corpos. É prática comum, além de violentar, arrancar os mamilos e o clitóris à faca, e furar os pés para que não possam fugir e sangrem até a morte. É uma guerra sem fim, alimentada pelo mercado internacional de diamantes, e talvez o Congo seja, há mais tempo, o pior lugar do planeta para uma mulher nascer.
A única saída para Marie é inventar vida no território da morte. Com outras 17 mulheres, ela criou, em 1983, uma organização chamada Coperma para reagir à violência contra seus filhos. Hoje, somam quase oito mil pessoas. Marie trabalha com vítimas de estupro. Mulheres de todas as idades que, além de serem estupradas, muitas vezes ficam com fístulas porque a violência transformou o canal do ânus e da vagina, ou da bexiga e da vagina, em uma coisa só. O rasgo é produzido pela quantidade de homens que se alternam sobre cada mulher, mas também é feito à faca ou com revólver ou fuzil. E, por terem sido estupradas, elas são discriminadas na comunidade.
No Congo, Marie é uma mulher de classe média. Perguntei o que isso significa. Ela explicou: “Eu como todo dia”. Marie nunca ouvira falar do Brasil. Nem mesmo do clássico futebol, favela e carnaval. Ela chegou aqui ao aceitar o convite da jornalista Ana Paula Padrão para participar de um fórum de debates chamado “Mulheres reais que inspiram”, promovido pelo site “Tempo de Mulher”, em 2 de julho. Quando recebeu o convite, foi correndo procurar o Brasil no mapa. Marie estava feliz, porque há muito sonhava em vencer as fronteiras do Congo para pedir socorro ao mundo.
Nos quatro dias em que permaneceu na capital paulista, Marie repetia: “Como o Brasil é rico, como as casas são bonitas, como a população vive bem aqui!”. Sua tradutora, Ilka Camarotti, retrucava: “Não é todo o Brasil que é assim”. Quando perguntei a Marie do que sentiria saudades, quando voltasse ao Congo, ela disse algo impensável para qualquer brasileiro: “Da limpeza do aeroporto”.
Além do aeroporto, o hotel foi todo o Brasil que Marie conheceu. Nele, ela teve várias primeiras vezes: o banho de chuveiro, vinho branco argentino (ela nunca tinha provado nenhuma bebida alcoólica), algumas frutas, como coco, a escada rolante, o cartão para abrir o quarto, a TV (ela nunca tinha visto) e o controle remoto. Um arrepio de prazer ao receber nas axilas o jato de desodorante do patrocinador do evento.
Mas nada impressionou Marie mais do que o elevador. No último dia, ela já apertava os botões sozinha, com um dedo trêmulo, como se estivesse prestes a acessar algum tipo de magia. E nunca sabia qual era a hora de dar o passo para fora, o momento em que o chão, sem sair do seus pés, chegava ao chão de fato.
Várias vezes, ao longo desta entrevista, Marie divagou. Enquanto a tradutora passava as respostas do francês para o português, ela espiava um prédio em construção, onde um elevador subia e descia. Alto, mas para si mesma, Marie espantava-se com o mundo: “La technologie…” E ria sozinha, em abissal perplexidade. Depois, voltava a contar sobre os estupros.
Perguntei a Marie o que gostaria de dizer aos brasileiros. Ela disse: “Agora que eu vim e dividi a minha história, esse combate não pode ser apenas meu. Essa luta tem de ser também do Brasil. Vocês precisam ajudar as mulheres do Congo.”Marie acredita que o que faltava para que os brasileiros se importassem era que alguém conseguisse chegar até aqui para contar o que está acontecendo lá. Para ela, é difícil compreender que alguém saiba – e nada faça.
Esta é a história de Marie Nzoli – cujo último nome significa “sonho”.

O pai expulsou a mãe porque ela só paria meninas

“Meu pai era professor na escola da prefeitura. E minha mãe, agricultora e dona de casa. Minha mãe teve quatro meninas. E porque minha mãe só tinha meninas, meu pai a escorraçou de casa junto com as filhas. Minha mãe fugiu para a casa do sogro. Eu tinha 8 anos.
Meu avô fez a reaproximação: por um lado, tentou convencer meu pai a aceitar minha mãe de volta, por outro, precisou convencer minha mãe a voltar para casa. Ela voltou. E então fez oito meninos, e meu pai ficou feliz. Mas, nós, meninas, continuamos sem existir.
Era meu pai quem dava dinheiro para a minha mãe. Mas o dinheiro era só para a escola dos meninos. Meu pai achava que menina não precisava estudar. Então, minha mãe roubou dinheiro dele. Eu não tenho o direito de dizer ‘roubar’, mas, na realidade, foi isso o que aconteceu. Minha mãe roubava dinheiro do meu pai para pagar o estudo das filhas.”

Marie “só” foi estuprada pelo marido

“Eu fui estuprada pelo meu marido. Muitas vezes. Eu estava fazendo comida e não queria. Mas, ele dizia: ‘Vem cá’. Eu não queria, mas ele dizia: ‘Eu tenho o direito. É o direito do homem’. Ele me pegava mesmo diante dos meus três filhos. E, se eu me recusasse, ele me batia na frente das crianças. Até hoje eu não suporto escutar meus filhos chamando ele de ‘papai’.”(A tradutora diz: “é um monstro”. E Marie repete: “É um monstro”.)
“Em 1997, depois de seis anos de casamento, meu marido deixou um bilhete, dizendo que partiria para libertar o Congo.”(Neste ano,o guerrilheiro Laurent-Désiré Kabila depôs o ditador Mobutu, no poder desde 1965). “Nunca mais vi meu marido. Eu tenho medo de que ele volte. Se ele voltar, vou dizer para ele que, como ficou muito tempo fora, só posso aceitá-lo se ele fizer um exame de HIV. Como nenhum homem quer fazer o exame de HIV, ele vai recusar. Porque os homens dizem: ‘Eu não vou fazer o teste, você tem de me aceitar como eu sou’.
Como ele vai se recusar a fazer o teste, eu posso dizer que então não posso aceitá-lo. Vou dizer a mesma coisa à família dele. Mas, talvez, eles exijam que eu devolva o dote de 10 cabras. Agora, não sou apenas eu que tenho de devolver, mas também os meus filhos. Sinceramente, eu não sei se eles vão querer.”
(Pergunto a Marie se ela já teve prazer sexual alguma vez.)
“Vários homens quiseram fazer sexo comigo depois que meu marido foi embora, mas eu não quis. Eu não quero mais pensar nisso. Eu não quero isso pra mim.”

Imaculada é o nome da irmã violada

“Minha irmã mais nova, de 14 anos, estava saindo da escola. E encontrou uma milícia. Eles viraram a cabeça da minha irmã para trás. Giraram tanto a cabeça que ela passou dois anos sem se mexer. Ficou também com os olhos doentes. Minha irmã ficava de olhos fechados, sem conseguir caminhar ou comer. Ela não se movia. Eu dava banho nela e também lhe dava comida. Naquele dia, minha irmã se debateu, mas dois deles a estupraram. Minha irmã se chama Immaculé.”

Mulheres contaminadas: a nova arma biológica

“Há estupros todo dia. Meninas e também mulheres mais velhas estão plantando. Os militares passam e as estupram na frente de todo mundo. Vi meninas de 10, as mais velhas com 15 anos, serem estupradas. Os mais pobres precisam andar até 30 quilômetros para encontrar água para beber. As meninas vão buscar água e, quando voltam, os militares as violentam. Depois, elas geram bebês.
Pouco importa se é milícia ou exército.Guerrilheiros e militares são todos selvagens. Se as mulheres resistem, eles cortam os seios e o clitóris. Uma vez jogaram vários militares que já estavam doentes de Aids na nossa cidade e contaminaram muitas mulheres. Existe lá um hospital só para cuidar das mulheres infectadas.
Os ruandeses e também os ugandenses, mas mais os ruandeses, querem exterminar a população do Kivu do Norte, onde eu vivo, para ocupar o nosso território. Antes, a guerra era com faca, com fuzil. Mas, hoje, além da faca e do fuzil, existe a doença. Eles estupram as mulheres, transmitem a Aids e assim vão nos matando. É um genocídio. E é um genocídio há muito tempo.”

Marie fez o parto nua, com dinheiro escondido no ânus e na mira de fuzis: se fosse menino, seria poupada; se fosse menina, fuzilada

“Na primeira vez em que fui de Butembo à cidade de Goma (capital da província de Kivu do Norte, na fronteira com Ruanda) para vender batatas, nosso ônibus foi parado por militares de Ruanda.Esses militares têm autorização para trabalhar e para matar. Nesta estrada, a cada dia dez pessoas são estupradas e mortas. Eles pegam a mala dos passageiros, tomam o dinheiro, tiram as roupas, estupram as mulheres e matam todos. Eu precisava vender batatas e levei dinheiro comigo para a viagem.”(Marie não lembra se eram 10, 15 ou 20 dólares.)
“Quando esses militares de Ruanda pararam nosso ônibus, mandaram todo mundo tirar a roupa, inclusive o motorista. Havia pastores evangélicos no nosso ônibus, e eles também tiveram de tirar a roupa. Eu enrolei o dinheiro, bem enroladinho, e enfiei no ânus para que não me roubassem.
Eu sentia medo e raiva. Quando nos mandam tirar a roupa, a gente precisa dizer ‘obrigada’. Eles ordenam: ‘Agora, digam obrigada porque a gente ainda não matou vocês’. Mas, desta vez, não nos mataram. Como eu fazia acompanhamento psicológico na Coperma, um pastor disse aos militares que eu era enfermeira. A mulher de um deles estava grávida, e eles precisavam que alguém ajudasse no parto. Me deram um pano para cobrir o sexo, e eu fui ajudar a mulher. O militar disse que, se nascesse um menino, seríamos poupados. Mas, se fosse uma menina, estaríamos mortos.
Eu tremia muito. Pensei que estava no final da minha vida. Mas, quando nasceu o menino, os militares ficaram numa felicidade enorme. Saíram para comprar cerveja e comemorar. E, quando voltaram, celebraram fuzilando todos os passageiros de um ônibus que estava atrás do nosso. E depois botaram fogo no ônibus e nas pessoas. Dezoito mortos.
Então, nos mandaram sumir. E voltamos para o nosso ônibus nus. Eu tirei o dinheiro do ânus e, com ele, comprei lençóis e cortinas na feira, para todo mundo se cobrir.”
(É comum as mulheres congolesas esconderem dinheiro no ânus e também na vagina, na tentativa de salvar o pouco que têm, caso sobrevivam à violência. Quando são estupradas, o dinheiro é de tal forma introjetado no corpo que é preciso uma cirurgia para retirá-lo.)

Só a mãe faz Marie chorar

(Pergunto a Marie se este foi o pior momento da vida dela. Ela me diz que não. Parece surpresa por eu cogitar que seja.)
“O pior momento da minha vida foi a morte da minha mãe, um ano atrás. Muitas emoções explodiram dentro de mim. Minha mãe morreu nos meus braços. Dizem que foi por causa de uma intoxicação, que destruiu o fígado. Era como se ela dormisse. Minha mãe, que me fez estudar. Que se esqueceu dela mesma.Eu sou velha, mas sinto muita falta do amor da minha mãe. Fiz tudo para curá-la, mas não foi possível. Com a morte, não há cooperação.”
(Então Marie, que narrou todas as violências com os olhos secos, como se contasse o seu cotidiano – e é o seu cotidiano – começa a chorar. E chora por um longo tempo. A mulher violentada de várias maneiras, que já testemunhou todas as formas de violência, chora apenas de saudades da mãe.)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Por unanimidade, STF declara constitucional cotas para negros nas universidades



Fonte: Jornal do Brasil

Por unanimidade, na noite desta quinta-feira, o plenário do Supremo Tribunal Federal declarou constitucional a reserva de cotas para negros e demais afrodescendentes em universidades públicas, ao concluir o julgamento da arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF 186), ajuizada em 2009 pelo DEM, contra a instituição do sistema de cotas raciais pela Universidade de Brasília.
No início do julgamento, na quarta-feira, o ministro-relator Ricardo Lewandowski já tinha rejeitado a arguição, por entender ser “essencial equilibrar os critérios de seleção à universidade para se dar concreção aos objetivos maiores da Constituição”, já que o princípio da igualdade “não pode ser aplicado abstratamente quando é preciso atender aos excluídos”.

O voto de Lewandowski foi acompanhado pelos ministros Luiz Fux, Rosa Weber, Cármen Lúcia, Joaquim Barbosa, Cezar Peluso, Marco Aurélio, Celso de Mello e Ayres Britto (presidente, e último a votar). O ministro Dias Toffoli não participou do julgamento. Ele estava impedido, por já ter se pronunciado a favor das ações afirmativas quando ocupava o cargo de advogado-geral da União.
Fux
O ministro Luiz Fux — o primeiro a votar na sessão desta quinta-feira — começou por dizer que a integração étnico-racial na universidade da comunidade afrodescendente suscita dois sentimentos antagônicos: “receio e orgulho”.

Com relação ao “receio fóbico” de que o sistema de cotas estimularia o ódio racial, Fux lembrou que ele sempre existiu desde os anos anteriores à Lei Áurea, quando da Lei do Ventre Livre e da libertação dos escravos idosos.
Quanto ao orgulho, ele confessou ter um “caso de amor”, desde 1972, com a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a primeira do país a instituir as cotas para vestibulandos negros, com “um percentual considerado até desproporcional (40%)”.
Segundo Fux, “a opressão racial dos anos escravocatas deixou cicatrizes no campo da escolaridade”.
“A abolição da escravidão não seguida de políticas como a das cotas nas universidades acabou por atribuir ao negro a culpa pelos seus próprios problemas. Uma coisa é vedar a discriminação racial; outra coisa é implementar políticas que levem à integração social dos afrodescendentes”, na linha de que a verdadeira igualdade é tratar desigualmente os desiguais — afirmou.
O ministro destacou ainda: “Uma sociedade justa e solidária, como exige a Constituição, impõe à sociedade a reparação de danos pretéritos, perpetrados por nossos antepassados”; “o acesso ao ensino segundo as capacidades de cada um (artigo 208 da Constituição) impõe uma exegese que não descure uma interpretação realista da situação dos oriundos da comunidade negra”; “a política das cotas tende ao princípio da solidariedade, com base em uma política racial benigna, que não é discriminatória, até por que defende e promove a ‘raça humana’”.
Rosa Weber

A mais nova ministra da Corte considerou o voto de Fux uma “celebração da vida”, e assentou que a ação tinha de ser julgada à luz da Constituição, que consagra o repúdio ao racismo e o direito universal à educação. “Liberdade e igualdade andam de mãos dadas; para ser livre é preciso ser igual, e para ser igual é preciso ser livre. Trata-se aqui de igualdade racial, sendo raça uma construção social. Igualdade formal é a igualdade perante a lei; mas é igualdade presumível, que não leva em conta situações ou condições concretas. Não havendo igualdade mínima de possibilidades sociais não há verdadeira liberdade. É preciso que todos os grupos tenham chances equivalentes. Impõe-se assim, às vezes, tratamentos desiguais de pessoas formalmente iguais”, afirmou Rosa Weber.
Ela disse ainda que — mesmo admitindo a tese de que a ausência de negros nas universidades não é conseqüência de preconceito — 75% da população é composta de pretos e pardos. Ou seja, “de quem não tem as mesmas chances do que os brancos, tendo em vista a sua representatividade na pirâmide social”.
Cármen Lúcia

A ministra Cármen Lúcia resumiu seu voto escrito, destacando que “a igualdade é o princípio mais repetido na Constituição, mas é muitas vezes o mais retórico e o mais esquecido na prática”. Distinguiu “igualdade e igualação”, explicando que “a primeira é estática, enquanto que a igualação é um processo dinâmico”.
Enfatizou a responsabilidade estatal de fazer com que a igualação seja efetivada, com base nos princípios fundamentais do artigo 1º da Constituição. A seu ver, “as ações afirmativas não são a melhor opção, mas constituem um processo, uma etapa, diante de um quadro de igualdade formal, mas não de igualação”.
Joaquim Barbosa

O único ministro negro do STF afirmou que nada tinha a acrescentar ao “excelente e abrangente” voto do ministro-relator, “que esgotou o tema”. Limitou-se a pontuar alguns aspectos da questão, e a pedir ao presidente a juntada do seu voto escrito.
Ele comentou ser a discriminação um “componente indissociável do gênero humano que vem da competição”. E que as ações afirmativas têm como objetivo “quebrar uma dinâmica perversa”, já que os que sempre se beneficiaram das discriminações de que são vítimas os grupos minoritários, naturalmente, a elas se opõem. Acrescentou que “não se deve perder de vista o fato de que a história universal moderna não registra nenhum exemplo de nação que tenha se erguido à condição de potência política mantendo, no plano doméstico, uma política de exclusão”. E concluiu lembrando que já publicou livro e artigos sobre o tema, “não havendo necessidade para me alongar”.
Cezar Peluso

O ministro Peluso também endossou, com algumas observações, o voto “deveras extensivo” do relator. Disse que se concentraria apenas no caráter jurídico constitucional. Ou seja, se o sistema de cotas ofende ou não o princípio de igualdade consagrado na Constituição.
Segundo ele, o sistema é “um experimento que o Estado brasileiro está fazendo para resolver o problema da dificuldade de acesso, a de alguns grupos étnicos à universidade pública”.
Gilmar Mendes

Acompanhou o relator, mas criticou o fato de que o sistema adotado pela UnB se baseia apenas em critérios étnicos, e defendeu a necessidade de uma “revisão” do modelo daqui a dois anos, com a adoção de um novo critério de caráter social. “Aqui (no atual sistema) permite-se uma possível distorção, ou seja, que pessoas com desenvolvimento educacional adequado sejam convidadas a trilhar o caminho facilitado das cotas, com ricos se aproveitando delas, com a perversão do sistema”.
Marco Aurélio
O ministro enfatizou que “os homens não são feitos para as leis, mas as leis é que são feitas para os homens”. Fez uma análise das constituições anteriores à de 1988, e frisou que esta, ao enunciar seus “princípios fundamentais”, empregou verbos “dinâmicos”, e não “estáticos”: “construir uma sociedade livre e solidária”, “garantir o desenvolvimento nacional” e, finalmente, “promover o bem de todos”, sem qualquer preconceito de origem, cor ou sexo. Assim, segundo ele, não basta condenar a discriminação racial, mas “assumir postura dinâmica” com relação a ela. “Precisamos saldar a dívida de alcançar-se o tratamento igualitário, chegando-se às ações afirmativas”, afirmou. E acompanhou o voto do relator.
Celso De Mello

Depois de considerar “histórico” o julgamento, e de elogiar o voto “primoroso” do ministro Ricardo Lewandowski, o decano do STF fez uma longa exposição sobre os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil desde os tempos da I Conferência de Durban (2001) sobre racismo e preconceito racial, e sublinhou a necessidade da “efetivação concreta, no plano das realizações materiais, dos compromissos e encargos assumidos pelo país” com referência à desigualdade social em conseqüência de qualquer tido de discriminação racial. Ele deu ênfase à “validade” constitucional dos atos internacionais assinados pelo Estado brasileiro.
Ayres Britto
Ao votar na mesma linha do ministro-relator, o presidente do STF não deixou de fazer uma série de comentários, a partir do “preâmbulo” da Constituição, que dá ênfase especial à instituição de um Estado democrático “destinado a assegurar uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos”. Destacou que “quem não sofre preconceito de cor já leva enorme vantagem comparativa na escala social”. E que o princípio fundamental da igualdade está na Constituição, exatamente, para proteger aqueles que não estão “em igualdade de condições, em termos de bem estar”, com os socialmente privilegiados.
Ayres Britto também chamou a atenção para o fato de que o artigo 3º da Carta de 1988, segundo o qual, dentre os “princípios fundamentais” da República está o de “erradicar a pobreza e a marginalização”. Assim, a Constituição “legitimou as políticas afirmativas do direito dos seres humanos a um tratamento igualitário”, a fim de combater a discriminação — que é “dar a uma pessoa tratamento humilhantemente desigual”.
Voto do relator
Na sessão de quarta-feira, num voto de duas horas, o ministro Ricardo Lewandowski começou por dizer que estava em questão, basicamente, “a metodologia da reserva de vagas, que busca reverter o quadro de desigualdades pretensamente isonômico que caracteriza o quadro atual”.

“O critério de acesso deve levar em conta os objetivos do preâmbulo da CF, que instituiu ‘um Estado democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a igualdade e a justiça, como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social’” — afirmou.
Assim, ainda segundo ele, é “essencial equilibrar os critérios de seleção à universidade para se dar concreção aos objetivos maiores da Constituição”, já que o princípio da igualdade “não pode ser aplicado abstratamente quando é preciso atender aos excluídos”.
Lewandowski afastou o “conceito biológico de raça”, mas defendeu o que chamou de “discriminação positiva”, destacando que não se pode desconsiderar “o reduzido número de negros ou pardos que exercem cargos de relevo” no país, em consequência da “discriminação camuflada ou implícita ainda existente à sombra de um Estado complacente”.
O relator — ao rejeitar a ação proposta pelo DEM — afastou também o argumento de que a “autoidentificação” do candidato a se beneficiar da cota racial seria inconstitucional. A seu ver, a “identificação por terceiros” poderia gerar mais problemas do que a empregada pela universidade que, no entanto, continuaria a ter o poder de “referendar” a “autoidentificação”.
Na conclusão do seu voto, Lewandowski sublinhou que o sistema de cotas adotado pela UnB respeita os princípios da razoabilidade e da proporcionalidade, e é “transitório”, pois previu a sua própria revisão ao fim de 10 anos, se for o caso.  

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Um dia para passar à História


O Supremo Tribunal Federal (STF) julga esta tarde (25/04), as duas ações com que o Partido Democratas (DEM) e a Confederação que reúne os donos das Escolas particulares - a CONFENEN -, pretendem tornar inconstitucionais, as ações afirmativas que nos últimos anos foram conquistadas por negros e indígenas brasileiros.


Será a primeira vez, no Brasil, desde que foi criada em 1.891, que a mais Alta Corte do país se reúne para discutir a constitucionalidade de políticas voltadas ao segmento que, de acordo com o IBGE representa a maioria – 50,7%, de acordo com o Censo do IBGE 2010.

O silêncio secular dá a medida da omissão do Estado no Brasil, em relação ao tema da desigualdade sócio-racial, elemento estruturante da obscena desigualdade social brasileira.

A decisão do STF, aguardada há séculos, desde que milhões de negros foram retirados das senzalas para serem lançados às ruas no 14 de maio de 1.888, atingirá diretamente milhões de jovens negros e indígenas e as futuras gerações de brasileiros.

Ao longo de décadas, esses jovens e essas gerações tem tido obstruído o acesso aos bancos das maiores e melhores universidades públicas do país, não porque sejam menos inteligentes, mas apenas pelo fato de serem pobres e negros; negros e pobres – o que, no Brasil, significa quase a mesma coisa.

Apesar da importância do veredito dos 11 ministros do STF, os principais meios de comunicação brasileiros, mantém um silêncio obsequioso e ignoram o tema das suas pautas. Uma pesquisa rápida às edições dos principais jornais do país nas suas edições desta quarta-feira (25/04), evidencia que não há inocência nesse silêncio. O telejornalismo segue na mesma trilha de omissão.

Na semana passada, quando o mesmo Supremo começou a julgar a ação, também movida pelo DEM, contra os direitos dos quilombolas às suas terras - cerca de 2,5 milhões de pessoas estimadamente -, viu-se o mesmo silêncio do mundo midiático

Como é possível que isso aconteça quando estão em jogo questões que atingirão milhões de brasileiros, e que dizem respeito, no caso do presente julgamento, a quase meio milhão de jovens – que nos últimos anos, por meio das políticas de cotas das Universidades, ou do Programa Universidade para Todos (ProUni) conseguiram ter acesso ao Ensino Superior, até então restrito aos filhos da elite endinheirada?

A resposta só pode ser encontrada no fato de que esta República para poucos que temos, erigida sob os escombros do escravismo, tem como um dos seus pilares, o mito da democracia racial, para quem a escravidão, segundo ensinou Gilberto Freyre em "Casa Grande e Senzala", teria tido efeitos até benéficos ao processo civilizatório.

Tal mito, mais do que o mito do dragão e outros bichos, por aqui, adquiriu o status de uma ideologia que, como um corpo de idéias fechadas, se mantém impermeável à realidade e blindada de questionamentos.

Espera-se que a decisão desta tarde do STF, ao consagrar a constitucionalidade das ações afirmativas e das cotas, como políticas públicas inclusivas tendentes a reduzir o abismo de desigualdade e a reparar as consequências de séculos de escravismo e de racismo, tenha o efeito de cravar uma estaca no coração desse mito e coloque, de uma vez, o Brasil na rota da modernidade.

De qualquer forma, mesmo que a decisão não seja a que o Brasil espera e o Supremo Tribunal resolva, preservar as estruturas arcaicas da desigualdade, votando favoravelmente ao DEM e aos proprietários das escolas privadas, este 25 de abril - Dia da Revolução dos Cravos, em Portugal - é um dia para passar à História.
São Paulo, 25/4/2012

Dojival Vieira
Jornalista Responsável
Registro MtB: 12.884 - Proc. DRT 37.685/81
Email: dojivalvieira@hotmail.com; abcsemracismo@hotmail.com

Equipe de Redação:
Dojival Vieira, Dolores Medeiros, Julia Medeiros e Gabriel Silveira

domingo, 18 de dezembro de 2011



Havana (Prensa Latina) Há milhares de civilizações e grupos humanos que habitam o continente africano, os quais em sua quase totalidade foram vítimas da exploração escravista ou do sistema colonial subseqüente, impostos a partir do século XV pelas potências dominantes européias.

  Na Conferência de Berlim (1884-1885), onde as metrópoles do Velho Continente repartiram a África, foram traçadas as fronteiras dos países de acordo com as ambições coloniais deixando separado um mesmo grupo étnico, repartido entre duas ou mais nações.

Essa dura realidade é vivida pelos masai, um povo originário do Nilo. Uma parte está assentada no sul do Quênia e a outra no norte da Tanzânia, dois estados vizinhos da África Oriental, que obtiveram sua independência do Reino Unido nos anos 60 do século XX.


Apesar da separação pelas fronteiras coloniais que os governos depois da libertação respeitaram, os masai -que habitam duas nações- conservam suas tradições, levam uma vida nômade, possuem língua própria, forma de vestir, cerimônias, hábitos, costumes e valores culturais muito particulares.

Em suas origens eram caçadores e coletores mas devieram pecuaristas. Por suas crenças religiosas não cultivam a terra, e nunca aprenderam a faze-lo; compram verduras em mercados próximos, têm galhinhas mas não as comem, só vendem os ovos. Das vacas tomam o sangue e o leite que misturam numa xícara, além da carne.

Ao norte de Tanzânia, em pleno vale do Rift, entre os lagos Natrón e Nanyara habita o verdadeiro deus dos masai; trata-se de Ol Doinyo Lengai, um vulcão em atividade permanente que produz um estranho tipo de lava.

Essa lava está composta em sua maior parte por sódios-carbonato, dos quais os masai extraem o sal, uma matéria prima indispensável para a existência. Este acidente geográfico está a 2.800 metros de altura e sua cratera é de 300 metros de diâmetro e 50 de profundidade.

O lago salgado Natrón está na Tanzânia, ainda que bem próximo da fronteira com o Quênia, o que permite aos masai que vivem em ambos países verem-se favorecidos pelo sal.

Para os masai o deus Enkai habita a montanha. Na origem do mundo, fez a partilha dos dons terrestres a seus filhos: ao povo ndorobo entregou-lhe a caça e o mel, a outros sementes e aos masai correspondeu-lhes o gado.

Mas um ndorobo zeloso reclamou o gado, e ao negar-lho cortou a corda que unia o Céu com a Terra; da ira de Enkai surgiu o sofrimento dos homens. Por sua vez, o sal é um dom que essa divinidade entregou aos seus filhos prediletos: os masai.

No entanto, segundo a lenda, esse deus único está dividido em duas pessoas, Enkai-Norok, deus negro e generoso da chuva e Enkai-Nonyocik, deus vermelho e malicioso da seca. É assim tanto no Quênia como na Tanzânia.

Numa região onde são frequentes as secas catastróficas, esse fenômeno meteorológico está vinculado à existência mesma da etnia e é lógico que essa tragédia lhe atribua ao deus Enkai-Norok.

Os BAMBARA

Vivem os bambara em dois países que foram colônias da França - o Mali e a Mauritânia - até 1960, quando atingiram a independência depois de mais de um século de presença gala.

No Mali, os bambara são o grupo étnico dominante e a maioria de sua população. Ao outro lado da fronteira, na Mauritânia, vivem nas proximidades do povo chamado Timbreda.

Essa divisão deve-lhe ao colonialismo. Ambos falam bamana, que é uma das línguas mandinga e está ligada com a bantu, a qual inclui o swahili e o zulu.

A maioria dos bambara são agricultores, à diferença dos masai, só pecuaristas. Entre seus cultivos estão milho, iúca, fumo e hortaliças, e também criam gado, cavalos, cabras, ovelhas e galhinhas, dedicando-se também à caça para aproveitar carnes e peles. Nesta etnia, homens e mulheres compartilham as tarefas agrícolas.

Cada povo bambara compõe-se de muitas unidades familiares diferentes, em geral todas de uma mesma linhagem ou família extensa. Cada lar ou gwa é responsável pelo provimento de todos seus membros, bem como pela ajuda com as tarefas agrícolas.

As casas dos bambara caracterizam-se por serem maiores que as moradias de outros grupos étnicos das nações da África Ocidental. Algumas gwa têm 60 ou mais pessoas e os membros da cada uma trabalham juntos todos os dias exceto as segundas-feiras, dedicados ao comércio.

O matrimônio é caro, considerado como um tipo de investimento. Seu propósito principal deriva em ter filhos que proporcionem à família a força trabalhista e assegurem a continuidade da linhagem familiar.

A maioria das mulheres bambara têm em média oito filhos. Todos os adultos estão casados; inclusive viúvas de idade avançada, em seus 70 ou 80 anos, têm pretendentes porque os bambara acham que uma mulher aumenta o status do homem.

Quanto à religião, ainda que a maioria afirme que são muçulmanos, muitas pessoas seguem suas crenças tradicionais de culto aos antepassados. Segundo os bambara, os espíritos ancestrais podem assumir a forma de animais ou inclusive de verduras.

Nas cerimônias extraordinárias, os espíritos são adorados e fazem-se oferendas de farinha e água. O membro de linhagem mais antigo atua como o "mediador" entre os vivos e os mortos.

Apesar dos cinco séculos combinados de escravatura e exploração colonial, as metrópoles não puderam acabar com os hábitos, costumes e cultura dos grupos autóctones. Esses valores atuaram como proteções contra a barbárie estrangeira.

*Jornalista cubano especializado em política internacional, tem sido co-responsável em vários países africanos e é colaborador da Prensa Latina.

Fonte: Prensa Latina

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

14 de Novembro Traição de Porongos

Meses finais da Guerra dos Farrapos. Madrugada de 14 de novembro de 1844. Tropas imperiais comandadas pelo coronel Francisco Pedro de Abreu (1811-1891), o Moringue, atacam soldados farroupilhas que estavam acampados nas imediações do Cerro de Porongos, no atual município de Pinheiro Machado, no estado do Rio Grande do Sul, resultando na morte e na prisão de muitos. Em sua maioria, eram lanceiros negros, escravos que lutavam no exército farroupilha em troca da promessa de alforria. Anos depois, a divulgação de um documento que ficaria conhecido como Carta de Porongos, revelando um suposto acordo entre lideranças militares para dizimar esses lanceiros, inicia uma controvérsia que gera polêmica até hoje. 

A Guerra dos Farrapos, ou Revolução Farroupilha (1835-1845), foi o maior dos conflitos internos enfrentados pelo governo imperial. Durante dez anos, uma parcela da elite pecuarista rio-grandense, motivada por fatores políticos e econômicos, sustentou uma revolta contra o poder imperial, chegando a proclamar a República Rio-Grandense em 1836.

Para arregimentar soldados, os farroupilhas incorporaram escravos às suas fileiras, prometendo em troca a liberdade após o fim do conflito. De olho na alforria, alguns negros fugiram das propriedades onde eram mantidos escravos para aderir à luta. Outros foram cedidos por senhores de terra que apoiavam a revolução. Já senhores contrários ao movimento podiam ter seus escravos capturados à força, como aconteceu nas charqueadas – propriedades rurais onde se produz o charque (carne salgada) – de Pelotas.

Estima-se que em alguns momentos os lanceiros negros, como ficaram conhecidos estes soldados, tenham representado metade do exército rio-grandense. O africano José, de nação angola, foi um desses homens que sonharam em conquistar a liberdade pegando em armas. Em dezembro de 1837, José foi preso e interrogado pelas autoridades imperiais em Porto Alegre, informando que quase toda a “infantaria dos brancos” já havia desertado e que naquele momento os combatentes seriam quase exclusivamente “pretos, uns com armas e outros com lanças”. Estas eram as principais armas do conflito, já que as de fogo ficaram restritas a uma minoria. Além disso, pelo próprio caráter de guerra móvel, muitas vezes os lanceiros negros entravam nos batalhões sem maiores treinamentos.

No final da década de 1850, o político, charqueador e ex-líder farroupilha Domingos José de Almeida (1797-1859) denunciou publicamente o conteúdo da correspondência que teria sido enviada pelo então barão de Caxias (1803-1880) a Francisco Pedro de Abreu. A Carta de Porongos conteria evidências de um acordo prévio entre Caxias (comandante do Exército imperial no conflito) e o líder farroupilha Davi Canabarro (1796-1867). O objetivo seria favorecer a vitória imperial no combate do Cerro de Porongos. Em determinado trecho, Caxias informaria a Francisco Pedro o local, o dia e o horário para o ataque, garantindo-lhe que a infantaria farroupilha estaria desarmada pelos seus líderes.

A partir de então, o Combate de Porongos gerou uma acalorada controvérsia entre os historiadores e estudiosos que se debruçaram sobre o tema da Guerra dos Farrapos. Com base na Carta de Porongos, surgiram acusações de que o general Davi Canabarro – comandante do destacamento de negros – teria traído a causa farroupilha ao desarmar e facilitar a derrota dos lanceiros. Essa atitude teria como objetivo facilitar a assinatura do tratado de paz que vinha sendo negociado, já que o governo imperial era contra a ideia farroupilha de conceder a alforria aos escravos que lutaram como soldados. Por outro lado, negar a liberdade e mandar os lanceiros de volta às senzalas era algo não cogitado nem por alguns farroupilhas, devido ao temor de que um grande contingente de escravos militarizados, politizados e insatisfeitos com o não cumprimento da prometida alforria insuflasse levantes – a quantidade de escravos na província do Rio Grande do Sul em 1846, um ano após o término da Guerra dos Farrapos, correspondia a 20,9% da população.

Relatos da época, como o de Manuel Alves da Silva Caldeira, farroupilha presente em Porongos, afirmam que Canabarro teria sido avisado da aproximação de tropas inimigas e, mesmo assim, não teria tomado providência alguma. Pelo contrário, teria propositalmente desarmado e separado os lanceiros do resto das tropas acampadas perto do Cerro de Porongos. Dando crédito a estes argumentos, o episódio teria sido uma traição aos soldados negros.

A autenticidade da Carta de Porongos, no entanto, é questionada por alguns estudiosos, já que a versão que se tornou pública é uma cópia, e a original nunca foi encontrada. Uma das explicações é que o documento teria sido forjado pelo coronel Francisco Pedro de Abreu após o combate para desmoralizar Canabarro, único chefe farroupilha que ainda teria condições de reaglutinar as desgastadas forças rebeldes. Félix de Azambuja Rangel, subordinado ao coronel Francisco Pedro, afirma ter presenciado o momento em que seu comandante levou a carta para Caxias assinar e em seguida distribuir cópias entre os adversários. Por essa versão, os lanceiros negros não teriam sido traídos, e sim pegos de surpresa pelas tropas imperiais, assim como seus comandantes. 

Parece haver consenso entre os pesquisadores de que os lanceiros foram atacados em condições extremamente desfavoráveis, com inferioridade de armamentos, e que acabaram eliminados em quantidade considerável.

Somente nos últimos anos a importância e a dimensão da participação negra neste conflito têm recebido maior atenção. Hoje é possível afirmar com segurança que negros, índios e mestiços desempenharam papel fundamental na Guerra dos Farrapos não somente como soldados, mas também trabalhando em diversos outros setores importantes da economia de guerra, como nas estâncias de gado, na fabricação de pólvora e nas plantações de fumo e erva-mate cultivadas pelos rebeldes.

Apesar das promessas, em nenhum momento a República Rio-Grandense libertou seus escravos. A questão da abolição era controversa entre seus líderes. Ao mesmo tempo em que o governo rebelde prometia liberdade aos escravos engajados e condenava a continuidade do tráfico de escravos, seu jornal oficial, O Povo, estampava anúncios de fugas de cativos. Houve uma tentativa de abolição por meio de projeto apresentado na Assembleia Constituinte de 1842 por José Mariano de Mattos (1801-1866), que foi recusado. Anos após o fim do conflito, vários líderes farroupilhas ainda tinham escravos, como Bento Gonçalves (1788-1847), que morreu deixando 53 cativos para seus herdeiros.

O destino dos lanceiros negros no fim do conflito também é tema controverso. As negociações de paz, que resultaram na assinatura do Tratado de Ponche Verde em 1845, definiram que os escravos ainda engajados deveriam ser entregues ao barão de Caxias e reconhecidos como livres pelo Império. Sabe-se que, juntamente com outro grupo feito prisioneiro em batalhas, foram enviados ainda em 1845 para o Rio de Janeiro na condição de libertos, como noticiaram o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro de 26 de agosto daquele ano. Se de fato receberam a liberdade ao chegarem a seu destino, não se tem certeza. O ex-farroupilha Manuel Caldeira levantou suspeitas de que tenham sido novamente escravizados e levados para a Fazenda de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, agora como propriedade do Estado.

Alguns soldados negros podem ainda, ao longo do conflito, ter escapado para o Uruguai, formado quilombos ou mesmo buscado refúgio nas cidades, onde tentaram se passar por homens livres. Muitos permaneceram escravos no próprio Rio Grande do Sul. Um sobrinho-neto do general Antônio de Souza Netto (1801-1866) relata que, após a batalha de Porongos, uma parte dos lanceiros negros teria acompanhado seu antepassado farroupilha até sua propriedade no Uruguai, e que descendentes destes soldados viveriam até hoje nessa área rural conhecida como Estância “La Gloria”, na região de Paissandu.